Não há como frear a evolução da energia

Publicado em terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

“Duas grandes forças estão contribuindo para a grande transformação do mercado de energia: a digitalização e a ciência dos materiais. Eles estão fazendo das renováveis um recurso energético barato e abundante. Isso está impulsionando a descarbonização progressiva da eletricidade a preços competitivos e estáveis”

– Francesco Starace, CEO da Enel

Na opinião de Patrick Pouyanné, CEO e presidente do Conselho de Administração da Total, a transição do mercado de energia é indispensável e irreversível, mas pode não significar o abandono total do petróleo e do gás, mas apenas a sua redução no mix de energia. O problema para Pouyanné é o chamado “trilema da energia”, ou seja, a necessidade de conciliar a proteção ambiental com a necessidade de produzir energia a um custo aceitável e disponibilizá-la a todos. É por isso que, de acordo com Ulrich Spiesshofer, CEO da ABB, empresa especializada em tecnologias de energia e automação, o objetivo final é desacoplar o crescimento econômico do impacto ambiental.

Eficiência e digitalização

Spiesshofer também insistiu em uma abordagem integrada: as fontes renováveis ​​são a base da energia limpa, mas, por si só, não são suficientes; elas precisam ser acompanhadas pela eficiência energética, por uma rede de distribuição confiável e pelo desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia. De acordo com Francesco Starace, a chave para este processo é a digitalização da rede elétrica relacionada não apenas com a demanda de eficiência, como também com o desenvolvimento em larga escala da mobilidade elétrica. Para isso, será necessário além dos sistemas de armazenamento, dispositivos inteligentes e eficientes que permitam uma gestão flexível da rede.

A transformação já em curso, ao lado da descarbonização do mix energético que está reduzindo e estabilizando os preços, está trazendo eletricidade mais acessível para inúmeras atividades econômicas. Ao fazê-lo, desencadeia um mecanismo virtuoso que não só descarboniza a indústria de energia, mas também muitas outras atividades industriais.

“Queremos fornecer tecnologias que nos permitam impulsionar o mundo sem consumir o planeta”, explicou Spiesshofer.

O “efeito Trump”

O desenvolvimento tecnológico é agora a força motriz por trás da mudança, mas as políticas nacionais podem ser decisivas para alcançar os objetivos do acordo climático de Paris. Este ponto foi enfatizado por Rachel Kyte, CEO da Se4All (Energia Sustentável para Todos) e Representante Especial da ONU para Energia Sustentável.

Uma das questões mais comentadas em Davos a este respeito foi o chamado "efeito Trump", ou seja, as consequências das novas políticas mais protecionistas adotadas pela Administração dos EUA. De acordo com Kyte, a decisão da Casa Branca de deixar o acordo de Paris fez com que os outros países se unissem ainda mais e buscassem políticas ambientais com uma determinação ainda maior, “porque a sustentabilidade é do interesse de todos”. Para Pouyanné, a primeira decisão de Trump não terá consequências significativas, mas uma nova decisão dele, a de impor tarifas elevadas para os painéis solares vidos da Ásia, pode ser um problema.

O fator político é determinante para outra tecnologia de baixa emissão de gases de efeito estufa: a energia nuclear. Neste caso, o problema é o longo prazo e os consideráveis ​​custos de investimento que, por razões estratégicas, só podem ser realizados por países com uma economia bem planejada. A China é um excelente exemplo, como confirmado por Shu Yinbiao, presidente da Chinese State Grid Corporation, a empresa estatal de energia elétrica da China, que - mesmo lembrando os 48 reatores nucleares ainda ativos no país - esclareceu que o gigante asiático já se comprometeu a investir em energia eólica e solar: somente em 2017, os investimentos chineses em fontes renováveis atingiram a soma exorbitante de 100 bilhões de dólares.

Isso fornece mais evidências de que o mundo está se movendo decisivamente na direção das energias renováveis e da descarbonização, com foco em um futuro no qual a energia será limpa, segura e acessível a todos. E não há como retroagir.